Area Militar temas de analise


Marinha

Últimos artigos de análise


Anexação da Crimeia


Invasão de Goa


Operação Barbarossa


Rearmamento venezuelano


Os caças do FX-2


Navios de apoio logístico

O "novo" porta-aviões da marinha do Brasil

Em 15 de Novembro de 2000 foi efectuada a transferência para o Brasil do porta-aviões Foch.

O Foch, na marinha francesa, pode-se dizer que teve uma vida muito menos cansativa que o seu irmão mais velho, o Clemanceau. Na prática, com o objectivo de reduzir custos, a marinha francesa tinha aproveitado o Foch para utilização na maior parte do tempo como Porta-helicopteros, tendo por isso as suas duas catapultas Mitchel Brown, muito menos utilização que as do Clemanceau..

Convés de vôo do A-12 São Paulo

Também as exigências operacionais de um navio que opera essencialmente helicopteros são menores, por não ter a bordo (por não ser necessário) toda a tripulação e meios necessários para operar aeronaves de asa fixa. Todos estes factores acabam concorrendo para preservar o navio.

Assim, a aquisição do novo porta-aviões parece ser do ponto de vista da marinha brasileira, uma compra interessante, ainda mais porque o custo, que rondou na altura os 12 milhões de dolares, foi realmente extremamente convidativo, por um navio que ainda pode ter um muito consideravel valor militar.

Diferenças

O novo porta-aviões, registado com o numero A-12 e baptizado de São Paulo é um navio com características diferentes do anterior Minas Gerais.

A começar pelo tamanho, e pelo deslocamento, que é cerca de 50% maior, e pela capacidade de tansporte de aeronaves, que é igualmente superior. O São Paulo, conta com duas catapultas para o lançamento de aeronaves, contra uma apenas no Minas gerais. O "novo" porta-aviões, ao serviço da marinha francesa, poderia operar até quarenta aeronaves, contra oito aviões e oito helicópteros no porta-aviões anterior.

Algumas das diferenças, considerando os numeros da classe Clemanceau quando operando com bandeira francesa.:

 
A-11 Minas Gerais
A-12 São Paulo
Entrada em funcionamento
1945
1963
Deslocamento padrão
15 890 Ton
27 307 Ton
Deslocamento máximo
19 890 Ton
32 780 Ton
Comprimento
211.8 metros
265 metros
Elevadores
dois centrais
um central e um lateral
Catapultas
Uma (13.6 Ton)
Duas (20 e 15 Ton)
Aeronaves 8 aviões 8 helicópteros 29 aviões e 9 helicópteros
Propulsão 2 turbinas a vapor, 40 000 cv de potência velocidade máx. de 24 nós 2 turbinas a vapor 126 000 cv de potência. Velocidade máx.de 32 nós
Imagem de transição. O São Paulo e o Minas Gerais navegando juntos.

Uma análise tão distânciada quanto possível, diz que a marinha do Brasil, parece ter delineado planos, no fim dos anos 90, que incluindo ou não a aquisição do A-12 São Paulo, pareciam implicar alguma alteração na visão estratégica que o país tem para a sua marinha de guerra, e especialmente para a força que se constitui à volta do seu único porta-aviões.

A França, transferiu para o Brasil o FOCH, mas não transferiu, naturalmente nenhuma das aeronaves que utilizava, e cabe portanto ao Brasil, entrar na operação de orta-aviões de ataque convencionais, sem ter experiência anterior na operação deste tipo de navios.

De facto, a Argentina, que utilizou um porta-aviões do tamanho do antigo Minas Gerais, mas que o utilizou como porta-aviões de ataque, equipado com aeronaves de asa fixa (Skyhawk e Super Etendard) tinha mais experiência que o Brasil na utilização deste tipo de equipamento.

De entre as questões que se levantam, à marinha brasileira podemos destacar algumas:

  • Que tipo de aeronaves vai a marinha utilizar e qual a sua função?
  • Que sistemas de defesa devem estar presentes no São Paulo para o transformar num navio com valor militar e alguma capacidade de defesa?
  • Que sistemas electrónicos e de defesa deve o São Paulo dispor no futuro?

A primeira questão, parece estar já préviamente respondida, pois, antes mesmo de adquirir o São Paulo, a marinha brasileira tinha adquirido um lote de cerca de duas dezenas de aeronaves Skyhawk-II compradas ao Koweit, e as quais tinham um reduzido numero de horas de utilização e tinham sido utilizadas no clima seco do deserto, o que implica menor desgaste.

No entanto, os Skyhawk do Koweit, embora perfeitamente adaptáveis para a operação a partir de um porta-aviões, são aeronaves relativamente ultrapassadas. Trata-se de aviões de ataque, que dispõem de capacidade para atacar navios com bombas, mais ou menos como o fizeram há mais de 20 anos os argentinos contra as forças britânicas nas Falkland. Os Skyhawk não têm qualquer capacidade de utilizar armamento inteligente, e o seu radar é um simples radar de navegação.

O Brasil, parece ter adquirido os Skyhawk, unica e exclusivamente para criar a sua aviação naval de asa fixa, dado não ser credível que nos dias de hoje, uma marinha considere a possibilidade de operar numa situação real, uma aeronave relativamente desfasada, ainda que em muito bom estado de conservação.

Portanto, ou a marinha do Brasil, efectua uma modernização do Skyhawk, a qual deverá imploicar a adição de um radar que permita ao Skyhawk efectuar missões de patrulha e defesa, ou então será necessário utilizar outra aeronave.

Que aviões podem ser utilizados a partir do São Paulo?

Vought F-8E Crusader: O avião de superioridade aérea da marinha francesa, substituido pelo Rafale

Esta questão, é a mesma que a marinha da França começou por colocar e que levou essa marinha a retirar o Foch de serviço. Ou seja, o problema é bicudo. O principal avião de combate ar-ar que os franceses utilizavam no Foch, era o já vetusto F-8E Crusader. A aeronave tinha uma velocidade máxima de cerca de 1600 Km/h e um peso, que lhe permitia operar a partir das catapultas do Foch ou do Clemanceau, mas mesmo o F-8, precisou de uma versão especial, para poder aterrar nos porta-aviões franceses, exactamente por causa das dimensões destes. A França, efectuou testes com o F-18 em 1988 a partir do Foch (futuro São Paulo) mas o F-18 demonstrou também ser demasiado grande para operar a partir deste tipo de porta-aviões. A França, acabou por optar pelo Rafalle, mas mesmo essa aeronave, que chegou a efectuar testes no Foch, está ligeiramente acima da capacidade das catapultas do navio. A tabela seguinte mostra alguns valores aproximados para comparar as aeronaves que podem ser utilizadas.

 
Potência /empuxo
Peso vazio
Peso combate
Velocidade máxima
raio de acção operacional estimado
A4 Skyhawk
4 218Kg
4 747Kg
11 113Kg
1 087 Km/h
600Km
Super Etendard
4 630Kg
6 500Kg
12 000Kg
1 157 Km/h
700Km
Sea Harrier
9 752Kg
5 533Kg
11 793Kg
1 186Km/h
400Km
F/A-18 Hornet
7 257Kg
9 336Kg
22 710Kg
1 910Km/h
740 Km

Foi igualmente referida a possibilidade de operação de aeronaves de fabrico russo. O MIG-29K, que é a versão do MIG-29 adaptada para utilização a bordo de porta-aviões, ou do SU-33, da familia Flanker. No entanto, a utilização de qualquer destas aeronaves, implicaría alterações radicais no São Paulo, um navio com mais de 40 anos de idade. Sería por exemplo necessário instalar uma rampa na proa do porta-aviões, dado estes aviões russos não utilizarem catapultas.

A utilização da rampa, que é acima de tudo uma consequência de a Russia nunca ter sido capaz de produzir catapultas suficientemente potentes, implicava porém, no São Paulo, a utilização de grande parte do navio como pista de descolagem (quase até meia nau, ou mais) e a pista teria que passar por cima do elevador da frente.

A alteração de um porta-aviões russo, de forma a poder utilizar o MIG-29K, por exemplo, estimou-se entre 500 a 800 milhões de dolares americanos, mas provavelmente ultrapassará o valor máximo. As alterações ao São Paulo, com a colocação de uma rampa Ski-jump, e outros reforços e alterações que seriam necessários para a operação destas aeronaves, custaria quase 70 vezes mais que o preço que o São Paulo custou.

O São Paulo com uma rampa ski-jump, poderia operar aeronaves como o SU-33 ou o MIG-29. a área (a) representa a rampa, a área (b) representa a pista necessária para colocar no ar um SU-33 com carga minima, e a área (c) representa a porção adicional de pista para colocar no ar um SU-33 configurado para combate e ataque.

Mas não é só este o problema. Ocorre que ao colocar a rampa, é necessário um espaço para descolagem muito maior, de forma a que a aeronave ganhe a necessária velocidade para que quando chega à ponta da rampa leve já uma velocidade tal, que com o impulso que lhe é dado pela própria rampa consiga a sustentabilidade necessária para voar.

Para fazer isto, o São Paulo veria drásticamente reduzido o seu convés de voo disponível para a movimentação de aeronaves, Não poderia efectuar operações de descolagem e pouso simultaneamente, e ficaria sem um dos elevadores. Elevadores que de qualquer forma estariam sempre a ser utilizados no limite (O SU-33 pesa aproximadamente 17 toneladas e os elevadores podem levantar 20 toneladas no máximo). A perda da área frontal de estacionamento, que não poderia ser utilizada pelos SU-33 devido ao enorme tamanho da aeronave, limitaria os Sukhoi a operar à popa.

Na melhor das hipoteses, isto implicaria que o São Paulo poderia no máximo operar até seis SU-33. No máximo oito.

Este tipo de rampa, no entanto, poderia permitir ao São Paulo a operação de aeronaves do tipo do Harrier, da mesma forma como são utilizados pelos porta-aviões ligeiros do Reino Unido, da Espanha ou da Italia.

Há que realçar que as alterações poderiam por em causa a própria estabilidade do navio, que não foi pensado para ser equipado com este tipo de dispositivo, e reduziriam a capacidade do São Paulo de utilizar a sua principal catapulta.

De todas estas hipoteses, a mais viável ainda parece ser a da eventual futura utilização de um pequeno numero (6 a 8) de aeronaves F/A-18, em conjunto com os Skyhawk. Os F/A-18 teriam que ter algumas das suas capacidades cortadas, para permitir a sua operação a partir da catapulta central. Teriam que utilizar menos combustível, o que recduziria a sua autonomia, no entanto essa sería provavelmente a opção menos cara e a melhor relação custo/beneficio. Pelas mesmas razões, os caças Rafale, também teriam que ver as suas capacidades muito reduzidas, o que não faria sentido numa aeronave de custo muito elevado.

E os custos, são o factor mais importante a considerar, ainda mais que, o São Paulo necessita ter alguma capacidade de defesa, de que falamos na terceira e última parte desta matéria.

 



Título: A utilidade e função do porta-aviões São Paulo (última actualização: 04.12.2005)
Autor: Paulo Mendonça
Referências: Janes F.Ships / Encic.P.Aviões / Outras refs.


- Página 1->Antecedentes da aquisição - Página 2->o «novo» Porta-aviões da marinha brasileira - Página 3->Os sistemas de defesa e as armas do São Paulo

MENU

[Pag. 1]
Antecedentes da aquisição
2
o «novo» Porta-aviões da marinha brasileira
[Pag. 3]
Os sistemas de defesa e as armas do São Paulo