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Este acontecimento teve inicio em: 18-06-1589 e terminou em 18-06-1589
Vencedor: Reinos Habsburgos espanhóis

Forças em presença:

Inglaterra

Reinos Habsburgos espanhóis



O dia 18 de Junho, marca a data da retirada das forças inglesas, na expedição em que pretendiam «vingar» a tentativa de invadir a Inglaterra em 1588 levada a cabo pela chamada Armada Invencível [1]. Esta iniciativa da Inglaterra é normalmente esquecida pelos historiadores anglo-saxonicos, que tendem a dar uma exagerada importância a derrota da «Armada Invencível».

A expedição levada a cabo pelos ingleses foi de origem retaliatória sendo organizada uma poderosa armada, com o objectivo de invadir a Península Ibérica, para colocar no poder em Portugal o pretendente ao trono português, D. António Prior do Crato). [2]

Antecedentes

Quando em 1588 a «Armada Invencível» é derrotada - mais pela desorganização e pelo mau tempo que pelos navios britânicos – os ingleses consideram a possibilidade de efectuar uma expedição punitiva, aproveitando o facto de D. António ainda ser pretendente ao trono português.

Em carta à rainha Isabel, Sir John Norris expõe um plano de ação e apresenta um orçamento para uma iniciativa comercial.
O custo da operação foi estimado em £40.000 (equivalente a 400.000 ducados, já que um ducado era equivalente a 2 xelins e uma libra dividia-se em 20 xelins) e deste dinheiro a rainha deveria contribuir com um oitavo (12.5%), ou seja £5.000.

No entanto, embora Isabel I tenha apadrinhado a iniciativa, viu-se forçada a informar que a coroa não dispunha das cinco mil libras necessárias para comparticipar nos seus 12.5% da campanha.

Ainda assim, uma armada inglesa começa a ser organizada em Plymouth, com muitos dos navios que acabaram de lutar no canal. Os preparativos foram apressados e começam ainda antes dos últimos navios da Armada Invencível terem chegado aos portos do norte da Península Ibérica.

Os planos ingleses previam uma força de quase 35.000 homens, dos quais cerca de 19.000 soldados (a título de comparação, a Armada Invencível juntou 27.365 homens). Mas a complexidade logística da operação foi tão grande para os ingleses em 1589 como tinha sido para a Armada Invencível em Lisboa no anos anterior.

Grande parte das provisões já tinham sido consumidas ainda antes de a Armada sair de Plymouth. No total a força era constituída por 27.600 homens entre os quais 12.400 soldados, pois não foi possível reunir todos os homens inicialmente previstos. Parte dos navios seriam holandeses, mas estes não chegaram a fornecer todos os navios que inicialmente tinham sido prometidos.

De qualquer forma, a Armada Inglesa preparou-se para a resposta, e além de colocar D. António no trono de Portugal, os ingleses pretendem ainda destruir os navios sobreviventes e outros que estão a ser construídos nos portos da Península Ibérica, especialmente Lisboa e Sevilha.
Os ingleses vêm a construção destes navios como uma potencial ameaça e de facto, Filipe-II conta tê-los disponíveis em 1590, juntando uma nova Armada de 180 embarcações.

A grande armada inglesa zarpa de Plymouth em 18 de Abril de 1589, mas tendo conhecimento de que muitos navios da derrotada Armada Invencível se dirigiram aos portos do norte da Península, os ingleses dirigem-se para a cidade da Corunha em vez de se dirigirem para Santander (onde se encontrava o maior centro de construção naval do reino de Castela e Leão) e a Lisboa conforme os planos iniciais.

Na Corunha, a Armada Inglesa destrói três navios sobreviventes da Armada Invencível que estavam em reparação, um deles o galeão português São João.
A esquadra tenta tomar a cidade da Corunha (algo que também não estava previsto) mas falha.
A fortaleza da cidade consegue ser abastecida por mar por galés castelhanas, que os navios ingleses não chegam a atacar. Os ingleses desembarcam 7.000 homens em três vagas. A cidade é tomada mas não a fortaleza, o que não impede no entanto a pilhagem. Os ingleses confiscam mosquetes e armas várias e também tomam as reservas de comida, onde se encontram 5.000 toneis de vinho. O ataque a Corunha provocou segundo fontes inglesas entre 34 e 50 mortos ingleses e cerca de 500 entre os defensores (incluindo aqui população civil).
No entanto, declara-se a bordo da esquadra inglesa uma epidemia que resulta em muito mais baixas. Além disso navios holandeses abandonam a expedição e voltam aos Países Baixos.

Os ingleses tornam então a embarcar e dirigem-se a Portugal, onde chegam a 26 de Maio de 1589 desembarcando no ancoradouro de Peniche ficando o exército sob o comando do conde de Essex. O problema da doença a bordo da esquadra, levou a que estivessem disponíveis apenas 4.000 homens para a operação em Portugal.

Há que referir que as forças do monarca Filipe II eram constituídas por alguns castelhanos e alemaes, e eram tropas de muito má qualidade. Segundo o historiador Oliveira Martins, as tropas reais eram uma sombra dos outrora poderosos Tércios que tinham invadido Portugal apenas 9 anos antes. Os mercenários, segundo Oliveira Martins, mendigavam aos Domingos às portas das igrejas por um pedaço de Pão.
As tropas do rei Filipe II eram assoladas por contínuas faltas de pagamento e os soldados tinham que pagar alimentação, alojamento, armamento e fardamento do seu próprio bolso. No entanto, a maioria dos historiadores são unânimes em afirmar que ainda que desesperados e esfomeados, o seu treino militar dava-lhes alguma vantagem no campo de batalha contra tropas sem experiência.

No entanto as tropas hispânicas foram facilmente esmagadas pelo avanço das tropas inglesas, ainda que estas avançassem lentamente, aguardando que os portuguese se lhe juntassem.

Para os soldados da Coroa a situação era grave e quase insustentável mesmo com o envio de emergência de reforços. O rei em Madrid tinha sido informado da preparação da armada e tinha enviado para Portugal um Tercio de reforço constituído por 3.000 veteranos. Estes «Tercios velhos», eram muitas vezes literalmente «Tércios de velhos», constituidos por soldados com grande experiência mas com valor militiar muito variável. Em muitos casos tratava-se de homens debilitados pela doença e invariavelmente mutilados como resultado dos combates. Ainda assim eram úteis, por exemplo na formação de tropas verdes e para aumentar o moral.

Ainda que a tese seja contestada, as circunstâncias apontam para que perante a incapacidade dos soldados do rei, de cuja lealdade se duvidava profundamente, pois nesse mesmo ano tinham ocorrido motins das tropas hispânicas em toda a Europa por causa do não pagamento de soldos, apenas os portugueses poderiam evitar a tomada do país pelos ingleses.

Divisão de forças
O erro cometido na Corunha volta a repetir-se em Lisboa, com a força naval a seguir para Lisboa sem qualquer coordenação com a força terrestre enquanto que o conde de Essex à frente do exército inglês marcha em direcção à cidade, contando com um suposto levantamento popular ao lado de D. António, que deveria ajudar os ingleses a expulsar as forças espanholas.

Comandando uma pequena força de andrajosos soldados mal alimentados e em desespero, o governador espanhol defende-se por detrás das muralhas, e manda fuzilar todos os portugueses que são suspeitos de simpatizar com D. António, ocorrendo vários assassinatos.

A possibilidade de derrota das desorganizadas forças de Filipe-II é elevada. Seja pela possibilidade de cederem ao cerco, seja por se amotinarem, não há qualquer razão que permita concluir que as tropas castelhanas poderiam resistir aos ingleses.
É por isso a reacção do Duque de Bragança, D.Teodósio II, que fará pender os pratos da balança em favor dos castelhanos.

Na verdade, Portugal continuava dividido e D. António tinha na Casa de Bragança o seu principal inimigo político. O Duque de Bragança tinha como certo que, no caso de D. António tomar o poder, ocorreria com a casa de Bragança o mesmo que já tinha ocorrido 200 anos antes, com o assassínio em Évora do Duque de Bragança seu antepassado.

É por esta razão, que quando o Duque de Bragança sabe que os ingleses desembarcaram na Corunha e que D. António os acompanha, com o apoio de um exército inglês, junta as suas forças [3] e à frente de um exército de 6.000 homens, reforça as defesas de Lisboa.

Quando se torna evidente, que os reforços enviados por Madrid, se limitam a um «Tercio Velho», mas constituído por um numero insuficiente de homens de reduzida capacidade militar, o Duque organiza uma força adicional de mais 13.000 homens.

A capacidade de mobilização das forças portuguesas em favor do Duque de Bragança, demonstram a impossibilidade da tomada de Lisboa e levam os ingleses a duvidar da possibilidade de um levantamento popular em favor do partido de D. António.
As suas tropas ainda chegaram a tomar Torres Vedras e Cascais, mas Lisboa escapa-lhes.

Soldados protestantes ingleses num país católico, ainda por cima num período de guerras religiosas não conseguem apoio popular e chegam-se a verificar saques.
Essa falta de apoio popular, torna o cerco de Lisboa inviável, pois este só seria possível se os ingleses conseguissem apoio da população.

Sem apoio visível, e verificando que as únicas tropas portuguesas que apareceram são suas inimigas e não suas aliadas, as forças inglesas retiram para Cascais e a 18 de Junho embarcam de volta a Inglaterra. A Armada Inglesa é atacada poucos dias depois por uma esquadra de galés espanholas, que afunda três navios ingleses.

De volta à Inglaterra os ingleses ainda atacam o porto de Vigo na Galiza, e saqueiam a cidade, mas o objectivo de tomar os Açores também falha.

Razões de um fracasso:

A derrota da empresa inglesa e da sua Armada, parece a antítese da derrota da Armada Invencível, embora as duas Armadas tivessem dimensões idênticas e nos dois casos acabassem por resultar em fracassos.

No único combate naval que ocorreu, os ingleses saíram a perder, mas acima de tudo, o que marca a operação inglesa foi o facto de os comandantes ingleses não terem cumprido claramente as ordens que tinham e terem tomado a iniciativa modificando os planos.
Ou seja, fazendo exactamente o contrário do que fizeram os comandantes da Armada Invencível, que foram demasiado zelosos e não aproveitaram a possibilidade de destruir a esquadra inglesa em Plymouth.

Ao atacar a costa norte da Península, os ingleses perderam precioso tempo e gastaram importantes recursos que lhes faltaram para conseguir atingir os objectivos a que se propuseram, tomar Lisboa e destruir os navios em construção.

Sir Francis Drake caiu em desgraça e só voltou a participar numa operação militar 1595
A derrota da Armada Inglesa, demonstrou acima de tudo que a monarquia inglesa tinha claras limitações e a situação ficou-se por um empate.
Curiosamente, e como é de esperar, os autores ingleses aumentam em muito o valor das tropas hispânicas que enfrentaram, como forma de desculpar o insucesso.
Os erros e a descoordenação foram tremendos e a esquadra nunca actuou em conjugação com as forças terrestres que não possuíam artilharia para atacar as muralhas.

De imediato, o poder naval dos Habsburgos parecia voltar a estabelecer-se pois em 1591, a Armada do Mar Oceano voltava a ter um numero considerável de navios operacionais, com um total de 33 unidades, de entre os quais 21 galeões, mas ainda assim, menos que a Royal Navy.

Porém os problemas financeiros da Coroa dos Habsburgos continuaram a agravar-se. Sendo um império eminentemente terrestre, exauriu grande parte dos seus recursos em conflitos no norte e centro da Europa.
O declínio do poder naval da Coroa dos Habsburgos, em que Portugal se encontrava incluído era já inevitável.

Em 1598, dez anos depois da derrota da Armada Invencível, a Armada portuguesa com destino à Índia, não consegue zarpar pela primeira vez, por causa de um bloqueio inglês a Lisboa.

A iniciativa inglesa, não recebeu o epíteto de «invencível» como tinha acontecido com a armada que saíra de Lisboa um ano antes para atacar a Inglaterra, mas curiosamente também caiu no anedotário português.

Amigos de Peniche

Os ingleses chegaram a Portugal e desembarcaram na vila de Peniche numa altura em que não eram exactamente bem vindos. Para que viessem, D. António tinha-lhes prometido vantagens económicas que eram provavelmente mais desvantajosas que as condições a que Portugal estava submetido ao fazer parte da monarquia da casa de Habsburgo. Será alegadamente por esta razão que em Portugal, a um pretenso amigo que na realidade não o é, ainda hoje se chama… «Amigo de Peniche»



[1] – Armada Invencível é o nome que os próprios ingleses deram à armada dos vários reinos dos Habsburgos, reunida por Filipe II. A armada nunca recebeu essa designação fora de Inglaterra.

[2] - Em 1581, Filipe II tinha sido aclamado Rei de Portugal, com o título de Filipe-I. Filipe-I era filho de D. Isabel (filha do rei D. Manuel I, de Portugal) e do imperador austríaco Carlos V e era o mais importante e influente pretendente ao trono português.
Embora a tradição portuguesa exigisse um monarca português, o que à partida colocava Filipe fora da corrida à sucessão, a crise em que Portugal se encontrava, agravada com a estrondosa derrota portuguesa em Alcácer Quibir em 1578, levou a que grande parte da nobreza portuguesa apoiasse Filipe, esperando recuperar parte do seu prestigio e poder perdidos, com o apoio do mais poderoso monarca da Europa.
Com o apoio de grande parte da nobreza portuguesa, foi fácil a Filipe conseguir a aclamação como Rei de Portugal. O seu principal apoiante, foi o Duque de Bragança, o mais influente dos nobres portugueses, que foi regiamente pago pelo Habsburgo.

Com a vitória de Filipe e a sua aclamação como rei de Portugal, o derrotado D. António foge do país e tenta o apoio de vários inimigos da casa de Habsburgo, que como mais poderosa família real europeia, atraía sobre si a inimizade dos restantes reinos.

[3] – Como nobre mais rico da Península Ibérica, o Duque de Bragança tinha um número de vassalos calculado em 100.000.