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Dispositivo de defesa

Dispositivo de defesa
O dispositivo de defesa português baseava-se inicialmente na divisão do território em três zonas, que deveriam actuar de forma coordenada em caso de invasão. O plano português, chamado «Plano Sentinela» era basicamente um plano de retirada e acrescentou uma quarta zona (Mormugão) ao plano defensivo do território.

Sendo impossível defender o Estado da Índia Portuguesa, no caso de a União Indiana estar determinada a tomar o território, existiam ainda assim planos básicos de defesa da região.

Além de Damão e de Diu, de dimensões muito menores, o território de Goa, estava dividido em três áreas.

A região norte - Delimitada a norte e a nordeste pela fronteira com a U.I. A leste pela região centro e a oeste peloo Oceano. No seu extremo sul encontrava-se a ilha de Tissuary, onde se localizava Velha Goa e Pangim. A região era atravessada por vários rios, o que levava a que a melhor defesa contra o avanço de forças inimigas fosse a destruição de pontes. A região é plana e propicia à utilização de forças motorizadas.

Região centro - Delimitada a norte e a leste pela U.I. e a sul pela região sul-. Esta região tinha algumas elevações, que implicavam a necessidade de utilizar as estradas, não sendo das mais adequadas para a progressão  de forças mecanizadas. Também era necessário atravessar alguns cursos de água para prosseguir em direcção a oeste, onde se encontrava concentrada a administração do território.

O agrupamento que defendia esta região, era constituido por forças cedidas pelos agrupamentos norte e sul, e só seria efectivamente formado quando se iniciasse a operação sentinela. Ou seja, o agrupamento era criado, para retirar.
 
Região sul - Delimitada a norte pela região centro a sul e a leste pela U.I e a oeste pelo oceano. Esta região era também delimitada no seu extremo noroeste pela pequena região da península de Mormugão. A região tinha alguma protecção dada pelos rios a sul. Na área a sudeste uma linha de elevações que em alguns casos atingem os 600m torna a evolução de forças militares complicada. Isto implica que, a evolução no sentido sul-norte se tinha forçosamente que fazer pela zona junto à costa.
Além das elevações, no sector leste existiam áreas irregulares, alagadas durante a monção. No entanto a invasão dá-se durante a época mais seca.

O comando desta região estava em Navelim, e a noroeste desta posição estava a localidade de Margão, que era um entroncamento rodoviário por onde também passava a linha ferroviária. A norte-nordeste da localidade encontra-se uma elevação (chamada Monte Margão) onde se encontrava a 1ª bateria de artilharia.

Região de Mormugão - Uma quarta área fora criada já nos anos 60, correspondente à península de Mormugão, onde se encontrava a cidade de Vasco da Gama, o aeroporto de Goa e o porto de Mormugão. Num plano defensivo, e havendo possibilidade de evacuação, esse seria o mais adequado ponto para organizar uma resistência eficaz. A possibilidade de receber abastecimentos estaria em principio assegurada, fosse por via aérea ou por via marítima.

A situação em 1961

Durante os anos 50, o efectivo total de tropas portuguesas no Estado da Índia atingiu os 12.000 homens e três navios de guerra [2]. Mas no inicio de 1961, e após uma visita do Gen. Costa Gomes, considerando-se que mesmo esses efectivos não poderiam deter uma invasão indiana, o governo transferiu grande parte das tropas para África, após os sangrentos atentados terroristas em Angola [3].
Por isso, em meados de 1961, o efectivo cifrava-se em cerca de 3.500 homens. Mas se a enorme redução dos efectivos era problemática, mais problemática era a péssima qualidade do armamento disponível, a falta de munições e o estado de treino dos militares.
O sistema de comunicações, que em caso de necessidade deveria permitir a coordenação de acções dos vários destacamentos, praticamente não existia. Isto levava a que as comunicações fossem feitas através de estafetas.
O plano de defesa de Goa, chamado de «Plano Sentinela» dividia o principal território do Estado da Índia em quatro sectores, e as forças atribuídas a cada um deles tinham como principal tarefa, atrasar a progressão de forças inimigas em caso de um eventual ataque. Sabendo que o principal problema seria a desestabilização provocada por atentados terroristas que pudessem servir para justificar uma invasão, os principais esforços foram dedicados ao policiamento e à manutenção da ordem pública.


Os quatro sectores de defesa acima referidos, tinham os seus postos de comando estrategicamente colocados. Em teoria, deveriam permitir suportar um anel interno de defesa, aproveitando a disposição dos rios a norte e a leste. A sul, a situação era mais complexa, pois a não existência de obstáculos geográficos (rios ou montes) tornava a defesa muito mais complexa.
Ainda assim, e mesmo considerando que a região norte era a mais propicia ao avanço de forças mecanizadas, era dali que se esperava o principal avanço em caso de invasão. A União Indiana poderia utilizar meios anfíbios para garantir o atravessamento dos rios em apenas alguns dias ou mesmo horas.


O dispositivo português não contava com nenhum tipo de protecção aérea. Havia apenas alguns exemplares de armas anti-aéreas de 20mm e de 40mm Bofors. Não havia de combate aeronaves portuguesas no Estado da Índia. Em 1961 alguns caças F-86 tinham sido transferidos para a Guiné, mas não há notícia de se ter considerado a possibilidade da sua utilização na Índia, ainda mais tratando-se de material fornecido ao abrigo de acordos com a NATO.
A defesa costeira que tinha sido, juntamente com a presença naval, a razão da manutenção das praças era inexistente em qualquer das parcelas do Estado da Índia. A única capacidade de defesa costeira que existia dependia do único navio que se encontrava na região, o Aviso Afonso de Albuquerque, armado com quatro peças de 120mm.


A artilharia era constituída por peças de campanha de 87.6mm (25 libras) que curiosamente também eram utilizadas pelo exército indiano. Aparentemente, também tinham sido distribuídas algumas peças anti-tanque de 57mm, embora não houvesse munição para elas [4].

As forças portuguesas foram distribuidas de forma a que os esquadrões de reconhecimento (as unidades com maior mobilidade) pudessem retirar de forma ordeira garantindo ainda assim algum poder de fogo. A artilharia foi colocada a sul e na peninsula de Mormugão, lugar onde não havia nenhum obstáculo à progressão das forças da União Indiana. De qualquer forma, essas unidades estavam mal equipadas. Os esquadrões de reconhecimento utilizavam auto-metralhadoras Humber e viaturas de transporte de pessoal de origem norte-americana do periodo da II guerra mundial. Eram viaturas com 20 anos, num clima tropical humido e com pouca possibilidade de manutenção.

É também importante notar que segundo afirmam vários militares presentes em Goa na altura, a União Indiana parecia estar informada sobre as intenções portuguesas e aparentemente tinha conhecimento da estrutura do plano defensivo português.
Tal conhecimento no entanto, não parece ter sido total, dado vários incidentes que fazem parte dos relatórios, e testemunhos publicados, permitirem concluir que havia dados sobre as forças portuguesas que não eram pura e simplesmente do conhecimento das forças indianas, ou então não tinham sido transmitidos às unidades que invadiram aqueles territórios portugueses.



 [2] – Navios classificados como Avisos. Equivalentes a fragatas, com motores menos potentes. Em termos tecnologicos tratava-se no entanto de navios dos anos 30.
[3] – Atentados nos quais morreram dezenas de milhares de pessoas e que levaram a uma reacção rápida por parte de Portugal, debelando as revoltas em apenas alguns meses.
[4] – Aparentemente, segundo Carlos Alexandre de Morais no seu «A Queda da Índia Portuguesa» um dos comandantes de companhia no agrupamento sul, afirmou literalmente que não utilizaria as peças de 57mm (que eram contemporâneas da II guerra mundial) porque não tinha pessoal com capacidade para servir as peças, nem munições para as mesmas. Há no entanto que ressalvar, que as peças de 57mm eram armas anti-tanque capazes de defrontar qualquer viatura das que a União Indiana utilizou durante a invasão. Segundo a mesma fonte, várias das companhias de caçadores tinham recebido duas destas peças de artilharia anti-tanque.

 



Título: Invasão de Goa (última actualização: 05.12.2011)
Autor: Paulo Mendonça
Referências:


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