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17 / 18 / 19 de Dezembro: A invasão (Território de Goa))

 

A invasão


Embora tenham ocorrido confrontos entre forças de Portugal e da União Indiana alguns dias antes [1], como foi o, podemos afirmar que as operações militares convencionais, tiveram inicio na manhã do dia 17 de Dezembro de 1961.

Nesse dia, a União Indiana possuía forças em ordem de marcha que totalizavam 70.000 homens em armas, preparados para intervir. Desses, 45.000 constituíam o efectivo das unidades prontas para a invasão imediata do Estado da Índia, embora muitas das unidades indianas não tenham chegado a utilizar todos os efectivos na operação. Em situação de reserva, estavam unidades que permitiam disponibilizar mais 25.000 militares em caso de necessidade.

O resultado, foi que houve situações na região norte, em que as tropas foram enviadas para pontos pré-definidos onde deveriam atrasar a progressão das forças da União Indiana, e tiveram que recorrer às rações de combate que transportavam. Quando o verdadeiro ataque ocorreu, as tropas já tinham consumido as rações de combate que tinham disponíveis. Os problemas logísticos eram evidentes, embora houvesse casos em que foram provocados por informações desconexas e não confirmadas, segundo as quais a situação tinha melhorado, prevendo-se a volta aos quartéis das tropas que tinham sido enviadas para os postos fronteiriços.
Até à tarde do dia 17 de Dezembro, vários dos comandos ainda discordavam sobre se o Plano Sentinela estava em vigor.

Goa
Goa: As posições portuguesas aquando da invasão indiana em 17 de Dezembro de 1961. As unidades referidas são do nível esquadrão/companhia, no entanto há que notar que as companhias estavam em muitos casos divididas em pelotões destacados. É por exemplo o caso do 2º EREC na região de Bicholim, que tinha pelotões destacados em Ondá e Valpoi.

É também nessa tarde de 17 de Dezembro (já decorriam combates), que chega de Portugal via Carachi, um carregamento de munições anti-carro «Instalaza» que tinha sido pedido, utilizando-se o nome de código «chouriços». Quando a carga é inspeccionada, conclui-se que foram enviados chouriços de carne, e não munições. O erro nunca foi devidamente esclarecido.

Por volta das 09:45 do dia 17, as tropas da União Indiana ocupam a localidade de Maulinguém, a norte-nordeste, matando dois militares portugueses. As forças portuguesas do 2º EREC, mantêm-se nas proximidades da localidade e pedem autorização para contra-atacar. Essa autorização é recusada por volta das 13:45.
Não é claro se o fez antes de recebida a ordem, mas o 2º EREC efectua um ataque ao posto tomado por dois pelotões indianos, expulsando as tropas invasoras, que retiram. O posto é reocupado e as tropas assumem posições defensivas.

É durante a tarde do dia 17, que mais uma modificação do «Plano Sentinela» coloca unidades sob a dependência directa do Quartel General, que passa a dar ordens directamente às forças, passando por cima do comando de cada uma das regiões (agrupamentos).
É cumprindo essa determinação que às 21:00, o QG dá ordens aos dois esquadrões - 1º e 2º  EREC - para iniciarem as preparações para a retirada em direcção a Assonará. A retirada tinha sido antecipada pelo 1º EREC, pelo que decorre rapidamente.

Às 21:30 são pela primeira vez referenciadas viatura do lado indiano, na região de Doromagogo. Uma força de reconhecimento do 1º EREC é enviada às 02:00 do dia 18 para investigar e apoiar a retirada das forças de polícia que ainda ali se encontrassem.
A área estava na altura sob bombardeamento de artilharia indiana, mas os militares mantiveram-se dentro das auto metralhadoras.
Esta força é alvejada por tropas indianas na sua viagem de retorno, tendo respondido com fogo de auto-metralhadora, e posto em debandada a tropa indiana, que deixaram alguns mortos no terreno. A força indiana tomou o ruído do escape roto de uma das duas auto-metralhadoras, pelo ruído de carros de combate pesados.
Havia na área, carros de combate AMX-13 indianos, que poderiam ter sido utilizados com toda a facilidade, não fosse o receio de encontrar carros de combate portugueses que não existiam [2].

Pelas 22:30, o agrupamento centro continua sem saber exactamente com que forças conta. Ninguém parece saber ao certo, quem comanda o 2º EREC, que deveria passar para o comando do agrupamento centro logo que entrasse em execução o «Plano Sentinela»

Dia 18

È por volta das 04:00 às 04:30 da madrugada de 18 de Dezembro, que se inicia o bombardeamento de artilharia sobre posições portuguesas mais a sul em Maulinguém, onde também são referenciados carros de combate. O 2º EREC deixa de ter contacto rádio nesta altura.

Às 04:30 Bicholim, está debaixo de fogo e pelas 04:40 as forças portuguesas destroem a ponte naquela localidade . Também a ponte sobre o rio Chaporá em Colvale é preparada para destruição. Às 05:00 da manhã, perante a aproximação de carros de combate indianos é destruída a ponte em Assonorá.

A esta hora, o agrupamento Centro, inicia as operações que lhe estão destinadas para atrasar a eventual progressão de forças inimigas. Às 05:30, as tropas portuguesas saem do quartel de Pondá em direcção a Usgão, marchando na direcção das forças inimigas. Pelas 07:00 o comando da força é informado da situação do 2º EREC com que não tinha conseguido contactar. Aquela força (que estava na dependência do comando do agrupamento centro) tinha sido forçada a recuar, perante a pressão indiana. São emitidas novas ordens, tendo em consideração que os objectivos estavam já nas mãos do inimigo.

06:00 – O agrupamento sul é oficialmente informado de que a «Operação Sentinela» teve inicio

Às 07:00 da manhã, forças indianas bombardeiam o aeroporto de Dabolim

Por volta das 08:00 da manhã o agrupamento centro é informado da continuação do avanço das forças da União Indiana, que avançam em direcção a Ondá, de onde as forças portuguesas são obrigadas a retirar. Este avanço, pela sua velocidade, poderia implicar o isolamento do destacamento que se encontra em Molem, pelo que estas tropas recebem ordem para retirar para Darbandorá logo que estabeleçam contacto com o inimigo.

08:30 – As forças da União Indiana, invadem a fronteira sul, em Polém.

Às 09:00 os receios do comando do agrupamento centro justificam-se, pois chega informação de que o inimigo está numa posição a meio caminho entre Usgão e Onda.
A essa mesma hora, o «Plano Sentinela» começa a ser posto em prática pelo agrupamento sul. É destruída a ponte de Ordofondo, para dificultar a progressão inimiga.

10:00 - No sector norte, as tropas portuguesas continuam a retirada durante a manhã, conforme os planos, e sob fogo da artilharia indiana, que corrige o tiro à medida que as forças de infantaria avançam. As tropas portuguesas retiram para os arrabaldes a norte de Mapuçá, mas entre as 12:00 e as 13:00 são assinaladas forças hostis já dentro daquela localidade, impedindo a retirada das forças portuguesas, que se arriscam a ficar cercadas.
Forças do 1º EREC retiram através das ruas de Mapuçá, com as auto-metralhadoras à frente disparando para cobrir a retirada das viaturas de transporte de pessoal, passando por entre as forças hostis sem sofrer baixas. Dirigem-se para sul para o Ferry-Boat que os deverá levar para Pangim.

10:00 - Forças do 3º EREC (agrupamento centro) efectuam as destruições previstas em Darbandorá, retirando de seguida para Curchurem, rumo a sul, via Daucondá.

11:00 - As forças do agrupamento centro, que deviam retirar para a ilha de Goa (2º EREC) passam pela ponte de Candeapar. A força corre no entanto o risco de ficar isolada, pois no seu eixo de retirada está a ponte de Banastrim, que está prestes a ser destruída, por causa da aproximação das forças indianas que ocupam Piligão.

Também às 11:00, forças do 4º EREC (agrupamento sul) entram em contacto com o inimigo que avança a partir da Polém.

Nesta altura, meio-dia, tem inicio o combate entre o Aviso Afonso de Albuquerque e vários navios da marinha da Índia. O navio é fortemente atingido e conforme planeado é encalhado na proximidade de uma das praias da foz do rio Mandovi. Ainda é atingida uma fragata indiana, que se retira.

12:30 – O comando do agrupamento centro passa a ponte de Borim, que é destruída precisamente às 13:00 dirigindo-se para a península de Mormugão. As forças do agrupamento centro, passam a estar sob controlo do comando do agrupamento sul.

13:30 - É destruída a ponte de Banastrim, depois de todas as forças e destacamentos do agrupamento centro a terem atravessado. É assim cortada a única ligação por terra com a Ilha de Goa (ou ilha de Tissuary).

14:00 – Uma ordem incorrectamente interpretada leva o 4º EREC a retirar de Bali para norte, para Nuvem. Quando ali chegou às 15:30 foi mandado reocupar as posições anteriores. Temendo a falta de combustível, são-lhe dadas novas instruções para tomar posição a sul de Margão em Chinchinim.

16:00 – O 3º EREC recebe ordens para destruir a ponte de Quepem.

Pelas 17:45, as forças do 1º EREC e da 9ª CC (Agrupamento norte) completaram a sua travessia do rio Mandovi em direcção a Pangim, na ilha de Goa. O último a retirar é o comandante do esquadrão. Nessa altura aparecem na margem norte, carros de combate indianos, ao mesmo tempo que a artilharia se prepara para bombardear a cidade de Pangim. Os carros não podem atravessar o rio, mas a artilharia pode destruir a cidade, bem assim como Velha Goa.

18:00 – As forças da União Indiana atravessam o rio Zuari, para a ilha de Goa, utilizando transportes de minério.

Na ilha de Goa, uma vez que o agrupamento norte não tem armas anti-carro nem artilharia, não pode responder nem ao fogo da artilharia inimiga nem ao fogo dos carros de combate que disparam em movimento.
Perante a situação, e na perspectiva de as forças da União Indiana provocarem um massacre sobre a população civil, o comandante do agrupamento norte propõe a negociação da rendição.

22:00 – A capital de Goa, cidade de Pangim, é ocupada por forças da União Indiana.


 

[1] – São exemplos disso a provocação indiana às forças portuguesas na ilha de Angediva, com o intuito de criar condições para justificar a invasão, ou os ataques com metralhadoras feitos por forças regulares da União Indiana contra o posto da policia portuguesa em Sinquervale, na madrugada de 14 para 15 de Dezembro. Postos da Guarda Fiscal também foram atacados antes da invasão em 18 de Dezembro, ou as várias trocas de tiros ocorridas alguns dias antes da invasão propriamente dita.

[2] – Os indianos continuaram a fazer perguntas sobre os «tanques portugueses» mesmo depois da rendição. Este incidente demonstra que pelo menos algumas das tropas da Índia, não estavam plenamente informadas sobre o dispositivo defensivo português.

[3] – Existem muitas descrições, nomeadamente na internet (que tomamos por fantasiosas) dos combates ocorridos entre a marinha portuguesa e a marinha da União Indiana. Naturalmente há que considerar que em muitos casos os relatos ou descrições são resultado de afirmações nacionalistas e não têm qualquer objectivo para lá da exaltação patriótica das forças indianas. No entanto, e Independentemente da avassaladora superioridade numérica, que só permitiria um resultado, é interessante referir que há descrições para todos os gostos. Algumas fontes afundam o Aviso Afonso de Albuquerque várias vezes, outras afundam as lanchas de fiscalização em vários lugares.
Provavelmente o feito mais incrível da marinha da União Indiana, foi encontrado numa descrição originária daquele país, em que a dita força naval consegue afundar o Aviso português «NRP João de Lisboa», que estava no arsenal do Alfeite, no rio Tejo a milhares de quilometros de distância, em processo de conversão em navio de pesquisas oceanográficas,

Mas a mais incrivel proeza, é seguramente a que consistiu no afundamento do Aviso «NRP Gonçalo Velho», que tinha sido desmantelado num sucateiro no rio Tejo, vários meses antes dos combates terem ocorrido.



Título: Invasão de Goa (última actualização: 05.12.2011)
Autor: Paulo Mendonça
Referências:


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