Exército


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Tropas portuguesas no Afeganistão:
Equipamento ineficiente e desadequado ?
03.07.2007

As últimas referências a confrontos entre militares portugueses no Afeganistão e terroristas do movimento fundamentalista Talibã financiados pelos barões da droga afegãos, vem mais uma vez levantar a questão da adequação dos meios que estão distribuídos às tropas portuguesas no Afeganistão à situação no terreno.

As forças portuguesas, que podem ser utilizadas como forças de apoio em operações de combate e portanto podem entrar em contacto directo com as milícias islâmicas, têm por isso necessidade de equipamento que esteja à altura de responder às exigências decorrentes desta realidade no terreno.

As escolhas e opções tomadas sobre os equipamentos enviados para as missões internacionais em que Portugal participa nunca foram exactamente pacíficas, e a obsolescência e inadequação dos meios militares portugueses levou em vário casos a que Portugal tivesse que comprar à pressa equipamentos novos para permitir um nível mínimo de protecção às suas forças.

Quando foram enviadas tropas para Timor, adquiriram-se à pressa alguns veículos do tipo Hummer (HUMVEE) que foram enviados para o território.
Embora se tratasse de um veículo capaz, a versão enviada para Timor não terá alegadamente correspondido às expectativas, por a série de veículos enviada ter sido construída e adequada para operação em clima desértico e não em clima tropical, como o de Timor.

Mais tarde, o envio de uma companhia de militares da GNR para o Iraque, levou a que também tivessem que ser adquiridos veículos com blindagem contra armas ligeiras a um fabricante italiano.

O envio da actual força para o Afeganistão, onde se integra numa força da NATO, apresentou novamente problemas.
Decidiu-se enviar os Hummer que tinham sido adquiridos para Timor, mas houve quem se opusesse a que os veículos fossem enviados, porque era evidente que a blindagem destes era inadequada para o teatro de operações em que as forças portuguesas iam actuar.

Assim, foram enviados para o Afeganistão os veículos Panhard VBL e os Hummer foram enviados para Israel onde foram submetidos a uma transformação, com vista a aumentar a sua blindagem.
Enquanto os veículos portugueses não ficaram prontos, o exército teve que pedir veículos VAMTAC emprestados ao exército espanhol, de fabricação da empresa UROVESA da Galiza e que são basicamente uma cópia do conceito do Hummer, com modificações introduzidas localmente e um motor diferente.

Foi a bordo de um destes veículos de origem espanhola que ocorreu aquela que foi até ao momento a única vitima fatal ocorrida no Afeganistão, embora pelos dados conhecidos, o óbito não tenha a ver com blindagem ou protecção do veículo.

Em combate
Ao contrário do caso com o veículo VAMTAC no final de 2005, as últimas notícias sobre «escaramuças» em que participaram forças portuguesas no sul do Afeganistão referem combates efectivos entre militares portugueses e terroristas Talibã.

No último caso relatado, ocorreu um ataque contra as forças portuguesas em que foram utilizados equipamentos do tipo Lança-Granada Foguete (LGF) também conhecidos como RPG.

Os projecteis do tipo LGF têm capacidade para perfurar até blindagem espessa, e a única forma de evitar a sua acção é utilizando blindagem adequada.
É evidentemente verdade que não há blindagem absolutamente segura, no entanto o que sabemos, é que embora a blindagem dos «pequenos» Hummer ao serviço das forças portuguesas, tenha sido modificada e melhorada, também foi feita referência ao facto de terem sido atingidos três dos cinco Hummer da coluna, sendo que pelo menos um deles foi efectivamente perfurado por um projéctil de calibre 14.5mm, provavelmente de uma arma de fabrico russo.

Esta indicação, é condizente com o tipo de segurança e categoria de blindagem que foi adaptada nos Hummer portugueses pela empresa israelita Plasan-Sasa.
Não se sabe também, onde é que o projéctil de 14.5mm atingiu o veículo, pois o Hummer com blindagem israelita não tem o mesmo tipo de espessura em toda a sua chapa, destinando a maior parte da protecção a proteger os tripulantes.

A necessidade de proteger os militares destacados no Afeganistão, tem sido de especial importância para todos os países que participam na força, mesmo para os países que têm forças destinadas unicamente a patrulha e não a acções militares contra os terroristas Talibã.

A Alemanha, por exemplo, tem vários tipo de veículos no terreno e encomendou mais unidades recentemente. A Holanda, que tem tropas combatentes no terreno fez a mesma coisa.

A necessidade deste tipo de veículos tem sido tão grande que nos Estados Unidos se fazem compras de pequenas quantidades de vários modelos, tendo-se mesmo recorrido à reactivação da produção do conceito do velho V-100 (conhecido em Portugal como Chaimite) embora com blindagem e protecção adicional, para proteger colunas de veículos.

O antigo Chaimite, em versão século XXI: Solução de recurso e de emergência
Em Portugal, se temos que realçar o cuidado que houve por parte dos militares do exército, fazendo pressão para que não se enviassem para o Afeganistão os primeiros veículos Hummer fracamente blindados, também temos que afirmar que entretanto passaram quase dois anos desde que o primeiro contingente português chegou ao Afeganistão.

Desde o Outono de 2005, até ao Verão de 2007, muito mudou no Afeganistão.
O teatro de operações mudou, as características da força da ISAF foram-se modificando, e acima de tudo, a ameaça dos Talibã aumentou muito, passando de bombas de beira-de-estrada para movimentações de forças no terreno, armadas com armamento médio, capaz de provocar danos e baixas elevadas a veículos com blindagem mais fraca.

Notemos por exemplo, que o veículo Panhard VBL que Portugal tem no Afeganistão também já não é adequado ao cenário. Em primeiro lugar trata-se de um veículo de reconhecimento com capacidades anfíbias que são praticamente inúteis no Afeganistão. Por outro lado a sua blindagem é ineficiente, ao ponto de outros países que utilizam o VBL - reconhecendo a sua deficiência – terem aplicado painéis de borracha na parte exterior do veículo, destinados a pré-detonar os projecteis do tipo LGF (como o RPG-7).

Fuchs alemão: Sem tropas combatentes, mas preocupação com a protecção dos militares


Entretanto em Portugal, o problema do re-equipamento das Forças Armadas continua a ser tratado como um tema menor.
O Presidente da República afirma que o rearmamento deve ser prioritário mas na realidade as coisas avançam muito, muito devagar.

A prova, é que passaram quase dois anos desde a chegada das tropas portuguesas ao Afeganistão, sem que tenha sido equacionado o problema da deficiente blindagem dos veículos no terreno.

A futura incorporação de veículos blindados Pandur-II, não responde a este problema, pois o Pandur-II encontra-se noutro escalão de veículo blindado, sendo demasiado grande para este tipo de missões e não tendo nas suas versões básicas a blindagem adequada para este tipo de cenário.

A necessidade mais urgente para a força portuguesa no Afeganistão, está na utilização de veículos de dimensão maior que o Hummer, mas com mobilidade superior ao Pandur, idênticos aos que vários países europeus têm vindo a incorporar nas suas forças nos últimos tempos.

O numero de forças portuguesas destacadas no Afeganistão é muito pequeno, mesmo proporcionalmente ao tamanho do país e à dimensão das suas Forças Armadas. Se não temos capacidade para sequer armar e proteger uma companhia reforçada, que nem sequer chega a 200 homens e mulheres no terreno, então talvez não sirva de nada a sua presença.

Ao longo da sua História, Portugal conta com vários exemplos de militares abandonados pelo poder político à sua sorte, e a acreditar no que se vê presentemente, poderemos estar perante a repetição de alguns desses erros.

Os militares, por razões de disciplina não podem protestar perante o arrastar da situação por parte dos governantes, perante o que deveria ser uma emergência (como o é noutros países).

Essa é a razão desta chamada de atenção.
Espera-se que entretanto, não ocorra nada de mais grave que uns RPG-7 mal disparados.


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