Americanos consideraram ataque aéreo na Geórgia em 2008 Destruição do Túnel de Roki foi sugerida por conselheiros de Bush15.01.2010
Uma publicação recente, veio colocar a nu detalhes até agora desconhecidos sobre a invasão da Geórgia pelo exército russo de Vladimir Putin, em Agosto de 2008.
Segundo Ronald Asmuss, autor do livro «A little war that shocked the world» ou «Uma pequena Guerra que Chocou o Mundo», os problemas que levaram ao conflito na antiga república soviética, começaram em Abril de 2008 - apenas quatro meses antes da invasão russa – quando numa conferência em Sochi no Mar Negro, entre americanos e russos, Vladimir Putin fez declarações extremamente violentas contra a Geórgia.
Cheney acusou Bush de falta de vigor
Depois dessa reunião entre russos e americanos as relações entre o presidente Bush e o vice-presidente Dick Cheney ficaram abaladas, porque este último considerou que o presidente norte-americano deveria ter explicado vigorosamente a Putin, que os Estados Unidos não admitiriam uma intervenção russa contra a Geórgia.
Segundo o autor do livro, George Bush foi acusado de «não bater com a mão na mesa» e isso foi interpretado por Vladimir Putin como uma aceitação por parte dos Estados Unidos de uma intervenção Russa contra a Geórgia.
No dia 3 de Agosto, quando a tensão ente a Geórgia e a Rússia aumentava, ocorreu uma reunião entre o presidente americano e os militares e os conselheiros do presidente previram na sua maioria que os vários cenários poderiam apontar para um confronto directo entre forças russas e forças americanas.
Quando a invasão russa se tornou eminente, alguns dos conselheiros de George Bush chegaram mesmo a considerar a possibilidade de uma intervenção limitada, enviando aeronaves americanas para bombardear a entrada do túnel de Roki, uma construção dos anos 80 com 2.000 metros de comprimento por debaixo de uma montanha, cuja destruição tornaria muito lenta a chegada de tropas russas à Geórgia.
A operação poderia ser efectuada sem grandes perigos para as forças americanas, uma vez que o túnel podia ser atingido por bombas inteligentes lançadas a distâncias de quase 100km. A operação no entanto, poderia criar problemas com a Turquia, cujo espaço aéreo teria que ser utilizado.
Problemas entre europeus e norte-americanos
Entre os problemas levantados esteve a dificuldade de colaboração entre a administração norte-americana e os países europeus, que viam Sakaashvilli como um reformista mas também como uma espécie de agente americano de cabeça quente.
O autor diz que «A administração Bush, não conseguiu estabelecer as pontes necessárias entre europeus e americanos» para que a Rússia fosse confrontada com uma oposição unificada.
Os russos terão contado com este factor e aguardaram que a presidência da União Europeia fosse entregue à França para então decidir pela invasão.
A intervenção de Sarkozi terá sido no melhor estilo francês e o presidente da França fez o que os franceses melhor sabem fazer: negociar a rendição e a fuga.
O presidente da França, que serviu de mediador quis sair bem na foto e disse aos georgianos que os Estados Unidos não iam mover uma palha e que a Europa muito menos.
A acção de Sarkozi e a confusão que se seguiu levou a que as ordens dadas ao pouco organizado exército da Geórgia conduzissem a uma desorganizada debandada das forças georgianas nas estradas que ligavam Gori a Tbilisi, a capital georgiana.
Absoluta confusão do lado russo
Se os georgianos estavam completamente desorganizados e ficaram desmoralizados com as demarches de Sarkozi, a verdade é que do lado russo as coisas não estavam muito melhor.
Temendo uma intervenção ocidental, as forças russas foram apressadas para Sul, sem qualquer organização logística racional. Após 24 horas as tropas russas tiveram que ser alimentadas pelos populares de étnia russa na região, porque o sistema russo de apoio logístico tinha entrado em colapso. Militares russos foram filmados a roubar casas e jornalistas estrangeiros foram assassinados pelos militares russos, depois de terem filmado os roubos.
A mais clara demonstração da desorganização do lado russo esteve no apoio aéreo com que os russos contaram desde o inicio, mas que estava completamente descoordenado. Hoje sabe-se por exemplo, que a Geórgia não perdeu nenhum dos seus aviões de combate (foram todos encontrados em hangares em Tbilisi) que nem sequer foram utilizados por não estarem em condições de voar.
O resultado, foi mais tarde tornado público por relatórios dos próprios russos que reconheceram que todos os aviões georgianos que tinham abatido, eram na realidade aviões russos, atingidos por mísseis disparados pelos seus próprios militares.
Além de vários caça-bombardeiros Su-25 abatidos pelos seus próprios militares a Rússia perdeu várias aeronaves para a defesa anti-aérea georgiana, de entre os quais se destacam um caça Su-24 e até um bombardeiro estratégico Tu-26 «Backfire», que teve que ser utilizado por absoluta falta de meios para efectuar reconhecimento aéreo, para tentar perceber onde estava o exército georgiano. Sem capacidade para efectuar bombardeamentos precisos o exército russo utilizou a velha táctica dos tempos de Estaline, de bombardear tudo, sem preocupação com as vítimas.
Como resultado centenas de georgianos foram mortos pelos bombardeamentos russos sobre populações civis.
Até hoje, a censura russa continua a fazer passar a ideia falsa de que ocorreu um massacre na cidade de Tskhinvali provocado pelos georgianos.
Os dados recolhidos com esta nova publicação vêm confirmar a tese de que a Rússia provocou a movimentação georgiana sobre os territórios da Abkazia e da Ossétia [1] e que os norte-americanos puré e simplesmente ficaram parados sem saber o que fazer.
O presidente Bush em fim de mandato considerou que não seria boa politica criar problemas com a Rússia. A avassaladora superioridade tecnológica norte-americana - que ficou patente perante a pobreza dos equipamentos russos verificada durante a invasão da Geórgia - poderia ter impedido a progressão russa, mas humilharia a Rússia e afectaria de sobremaneira as relações entre os dois países, arriscando uma nova guerra fria.
Ainda assim, quando os russos acharam que tinham o caminho aberto para chegar a Tbilisi, foi necessário o presidente norte-americano finalmente bater com a mão na mesa e explicar aos russos que não permitiriam que Tskinvali fosse tomada.
É nessa altura que é anunciado o envio de aviões C-17, que pousam pela primeira vez em território georgiano no dia 12. É posteriormente anunciado o envio de um contra-torpedeiro para o Mar Negro e de outros navios como o navio de apoio Mount Whitney.
Dick Cheney, que criticou duramente Bush pela inactividade, foi o primeiro dirigente a chegar à capital da Geórgia para prestar solidariedade ao presidente do país.
[1] – Esses territórios proclamaram a independência, mas tal independência foi reconhecida apenas pela Rússia e por uma pequena república centro-americana.
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