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A Guerra das Laranjas - Ou a criação do problema de Olivença

por Paulo Mendonça
20.09.2004


No passado domingo, dia 19 de Setembro, notei umas curiosas palavras do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando fala do recente livro de António Ventura, A GUERRA DAS LARANJA – a perda de Olivença.

O Professor Rebelo de Sousa, refere na altura, que não se trata da guerra em que perdemos Olivença, mas sim da guerra em que foi criado o problema de Olivença.

O livro, o primeiro da História Militar, secção “Batalhas e Campanhas” a que pertence o recente “A Nau de Portugal” tem 159 páginas de 19x27 cm e divide-se em sete capítulos, a saber:

I - Os Antecedentes da guerra
II - Os Preparativos
III - Elvas, Olivença e Juromenha
IV - Os Combates de Arronches e de Flor da Rosa
V - O cerco de Campo Maior
VI - Outras operações
VII - Os tratados de Badajoz

Além disso há 11 páginas de notas em que o autor documenta, justifica e complementa o seu trabalho.

O livro inclui muitos documentos interessantes, mapas e cartas, em que se mostra a evolução das movimentações militares dos exércitos português e espanhol, que ocorreram no ano de 1801, além de nos dar uma interessante panorama sobre as forças em presença e sobre as características e organização do exército português. São discutidas as tácticas utilizadas e explicados alguns dos movimentos de tropas, a sua razão e consequências. Ao dar aos leitores informação adicional e apresentar documentos, ao mesmo tempo o autor permite que o leitor tire as suas conclusões (se as quiser tirar).

Ficamos por exemplo a saber que o exército português se dividia na altura em Exército do Douro e Minho, Divisão da Beira, Exército do Alentejo (dividido em três divisões) referindo ainda as guarnições das praças fortes.

O resultado é um livro interessante sobre o tema, demonstrando igualmente que a “mitificação” do personagem responsável pela entrega de Olivença a Espanha, o extremenho, ”Godoy” não tem grande justificação, tratando-se do homem que “entregou a Espanha a Napoleão. Ficamos também a saber, por exemplo que as relações entre as casas reais de Portugal e de Espanha eram muito cordiais e quase familiares, sendo que, o conflito, tem também muito a ver com o posicionamento atlântico de Portugal e com a imposição pelos franceses a Espanha da sua visão continental, utilizando “Manuel odoy” como seu agente. A Espanha, não tinha o mais pequeno interesse por Olivença.

O livro refere igualmente, embora ao de leve, a questão da América do sul, muitas vezes apontada por Espanha, como argumento para a não devolução de Olivença.

Esta é aliás uma questão usada e explorada em Espanha, esquecendo sempre aquilo que é já uma realidade Histórica. Ou seja: Passados mais de duzentos anos sobre a ocupação, Olivença, continua a fazer parte de Portugal, como Gibraltar faz parte de Espanha. As perdas ou os ganhos no império não têm como se comparar com as questões relativas à unidade do território da nação que é Portugal, há quase novecentos anos.

Além do mais, a Historiografia espanhola, aponta a questão dos ganhos territoriais da América do sul, como uma prova da boa fé espanhola, mas normalmente esquece-se de que Espanha não invadiu o sul do Brasil, porque os barcos Ingleses tinham chegado a Buenos Aires, ocupavam o Rio da Prata e impossibilitavam totalmente qualquer acção militar espanhola, que foi efectivamente ordenada por Madrid. A Espanha não ficou com Olivença e com a banda oriental do Uruguai, não porque tivesse um governo justo, mas sim porque não foi militarmente capaz de invadir o sul do Brasil. Como o demonstram os documentos, vontade não lhe faltou. Se Espanha tivesse ocupado aquilo que é hoje o Rio Grande do Sul, também não teria devolvido Olivença, e encontraria outros argumentos para justificar o injustificável.

Finalmente, não é referido neste livro, (porque o autor provavelmente considerou não fazer parte do tema – no que terá alguma razão), o ocorrido mais de dez anos depois, quando Olivença foi libertada e a localidade, foi entregue pelos ingleses aos espanhóis, que entretanto tinham mudado de lado. Olivença foi “ofertada” aos espanhóis a título de recompensa, como quem dá um chocolate a uma criancinha. O Reino Unido, não está isento de culpas na questão de Olivença.

Por tudo isto, enquanto o tema de Olivença não for discutido e resolvido da única forma possível, nunca haverá um entendimento cordial verdadeiro entre Portugal e Espanha.

Quanto mais portugueses conheçam o tema de Olivença, melhor preparados estaremos para entender o assunto quando este começar a ser discutido. Está de parabéns o autor da obra.

Ao mesmo tempo está de parabéns Marcelo Rebelo de Sousa, ao lembras aos portugueses que a guerra das laranjas não foi a guerra da perda de Olivença, foi apenas a guerra onde se criou o problema de Olivença. O problema existe, e os problemas devem ser resolvidos.
Este texto é da autoria de Paulo Mendonça e foi publicado em 20.09.2004.


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